Um virar de página, de muitas páginas escritas, de muitas horas de rádio, de gravações, de muitas expectativas, algumas defraudadas… uma vida muito mais longa do que alguma vez poderia ter pensado alcançar. E como referi num anterior texto, os tempos em que comecei eram realmente diferentes.
Vivia-se a uma velocidade completamente diferente e com
meios que nem imaginávamos pudessem vir a ser o nosso dia-a-dia, a nossa
ferramenta de trabalho. Esqueçam lá as internets, emails, facebooks,
instagrams, x ou whatsapp para comunicar à velocidade da luz. Eram jornais,
faxes, telexes, revistas e cartazes em papel, aos montes, misturados com folhas
A4 dactilografadas com as crónicas, a que se juntavam uns quantos discos de
vinil e umas cassetes com as músicas de fundo dos programas. E os jingles eram
em directo, improvisando por vezes. Foi um início de experiência radiofónica
verdadeiramente marcante e que nos deu uma enorme bagagem.
Não havia telemóveis, apenas os telefones fixos para trocar
notícias, crónicas, até para entrevistas que não se podiam consumar em estúdio.
Foi uma época de enorme colaboração entre aqueles que tínhamos programas de
tauromaquia nas rádios locais e vivemos experiências interessantíssimas.
Os tempos mudaram e exigiram adaptações. Em todos os campos
e na forma de comunicar. Mas a essência essa não mudou. E por isso ainda nos
mantemos por cá, cuidando da informação e da crónica dos acontecimentos com o
cuidado que merecem. Fomos aprimorando as nossas formas, tal como os toureiros
vão amadurecendo o seu conceito de toureio.
Mudam-se os tempos mudam-se as vontades, como escreveu o
grande poeta Luís de Camões. E a forma como se interpreta o toureio, a pé ou a
cavalo, é hoje bem diferente de quando me iniciei nestas lides apesar das suas
bases fundacionais serem as mesmas. O público também mudou e aqueles que não
souberam adaptar-se às mudanças, às novas exigências, foram ou vão ficando pelo
caminho,
É preciso entender que com as redes sociais ficamos todos
mais expostos, pois se chegamos rapidamente e a mais lugares e pessoas, nem
sempre sabemos com o que contamos do lado de lá. E por isso, também hoje é
preciso ser mais cauteloso naquilo que se diz e se escreve ou mostra com fotos,
no fenómeno taurino.
As nossas referências continuam intactas pois bebemos de
boas fontes, que nos ensinaram trilhar este caminho. E sabemos bem que terrenos
pisamos, sem nunca faltar à verdade, à nossa verdade pois é do que vimos e
sentimos que escrevemos e falamos mantendo sempre um critério de rigor. Eduardo
Leonardo foi das pessoas que mais me ensinou sobre como ver e escrever sobre
toiros. Um homem apaixonado pela festa e com uma visão muito à frente do seu
tempo. Experienciei as diversas formas de comunicação: rádio, jornais, revistas
e até televisão. Tudo com tempos diferentes e diversas abordagens e que se
revelaram uma verdadeira escola, uma aprendizagem constante e enriquecedora.
Os novos tempos continuam a desafiar-nos em cada dia e em
cada acontecimento taurino. Procuramos sempre algo de diferente, destacar o
melhor de cada espectáculo e de cada tarde, não misturando a missão de informar
com mexericos e com politiquices.
Este é um ciclo longo, de 39 anos, um ciclo que conheceu
muitos momentos importantes, com temporadas a que assistia a 70/80 ou mais
espectáculos por temporada, onde assisti a grandes competições e tardes e
noites inesquecíveis de toureio. Sou daqueles que ainda vi toiros em Viana do
Castelo e em Espinhou ou em Cascais ou Setúbal,na Malveira, em Lagos,
Albufeira, Quarteira, Vila Real de Santo António. Ou das temporadas de 15 e
mais espectáculos em Lisboa, no Campo Pequeno.
Eram outros tempos e reinavam outras vontades, onde
tauromaquia não era atacada da forna que é só porque alguém a não entende, não
a compreende. E não adianta responder a esses indivíduos com literatura,
música, pintura etc. ou até com a defesa da biodiversidade que é representada
pelo espaço onde vive o toiro bravo de lide. Nem querem saber, e como tal, o
ideal é proibir.
Por isso estejamos atentos, tentemos que cada espectáculo
seja um acontecimento digno de registo pela positiva, com casas cheias e
competição. E que consigamos manter uma informação correcta, didática e
rigorosa sobre o que se passa na arena que é, verdadeiramente, o que nos deve
nortear.
Um agradecimento especial a todos quantos nos têm
acompanhado nesta aventura e que nos têm incentivado a continuar. Bem hajam!

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