Praça de Toiros do Campo Pequeno – Lisboa – 16/07/26 – Corrida Mista
Director: Lara Gregório de Oliveira – Veterinário: José
Luís Cruz – Lotação: ESGOTADA
Cavaleiros: António Ribeiro Telles, Fermin Bohórquez
Forcados Amadores de Santarém
Matador: Morante de la Puebla
Novilheiro: Tomás Bastos
Ganadarias: Murteira Grave (1º e 2º), Álvaro Nuñez (3º e
5º) e La Cercada (4º e 6º)
O nosso genial poeta que foi Luís Vaz de Camões escreveu em “Os
Lusíadas”, a seguinte estrofe: “Cantando espalharei por toda a parte se a tanto
me ajudar o engenho e a arte”.
Pois bem estavam reunidos todos os ingredientes para que a
corrida de inauguração da temporada de 2026 no Campo Pequeno fosse de êxito: um
grande cartel e uma lotação esgotada com 4 dias de antecedência aumentavam as
expectativas dos aficionados e que não saíram defraudados, bem pelo contrário.
Um resultado que teve momentos de grande empolgamento, de verdadeira arte e
magia. Uma corrida inolvidável e de grandes emoções.
Não sei se Morante se inspirou nas Tágides de Camões, se no
fado, essa melodia melancólica que soa nos corações. A verdade é que o maestro
de Puebla del Rio se mostrou, uma vez mais, a um nível insuperável, com um
duende, uma “despaciosidad”, um temple incrível e desafiando as leis da Física.
Parece que Camões o inspirou a espalhar a sua arte no dourado albero da praça
lisboeta. E com um público completamente rendido aos encantos e magia do seu
toureio.
Verónicas de bom traço e chicuelinas marcaram o início da
sua actuação frente ao mansote terceiro de noite, de Álvaro Nuñez. A faena de
muleta foi a demonstração clara e inequívoca do poderia toureiro de Morante.
Deixou a muleta sempre na cara do toiro para que este não tivesse outra opção
que não fosse segui-la. Girou sobre os calcanhares e com os seus prodigiosos
golpes de “muñeca” ligou os muletazos ao som de “Morante de la Puebla” o
passodoble escrito pelo maestro António Labreca e cuja partitura lhe havia
entregue no final das cortesias. Houve momentos para desfrutar do bom toureio,
por derechazos e naturais e alguns bonitos remates, Faena de muito boa nota.
Mas seria no quinto da noite de tudo passaria para um nível muito acima. Depois
de umas verónicas e meia de remate eis que decide colocar bandarilhas. Explosão
de aplausos. O segundo par foi bom, de muito comprometimento com o toiro
fechado em tábuas e o quarto par a quiebro foi muito bem executado. Rugia a
praça, e com razão. O início de faena de muleta com 4 passes de joelhos e muito
ajustados fez saltar a multidão nas bancadas. Depois vieram os derechazos ao
ralenti, o tal temple e “despaciosidad” do maestro, rematando com um bonito e
ajustado molinete. Depois uma excelente série com a mão direita, naturais, tudo
com a magia e arte do diestro de La Puebla del Rio. O Campo Pequeno aplaudia de
pé rendido ao seu encanto e magia. Uma lição. Para recordar para sempre. A saída,
pela Porta Grande, a ombros dos alunos das Escolas de Toureio de Vila Franca,
Moita e Montijo foi o corolário desta sua presença inesquecível em Lisboa.
Abriu praça outro Maestro, este da arte de Marialva, António
Ribeiro Telles de seu nome. E que bem que esteve a lidar o bravo toiro de
Murteira Grave. Uma lição do que é o bom toureio à portuguesa, clássico e com
classe, a deixar-se ver nos cites desde logo comum segundo comprido de muito
boa execução dando primazia de investida ao toiro. A série de curtos foi em
crescendo vendo-se a alegria estampada no rosto de António por conseguir materializar
esse conceito de toureio que o público tão bem soube premiar. Olá António Telles.
Fermin Bohórquez regressou ao Campo Pequeno e foi fiel aos
seus princípios, um toureio mais campero mas com verdade. Gostei de o ver nos
3º curtos, de boa nota e no par de bandarilhas que deixou a seguir e que teve
qualidade. Foi um bom regresso.
O jovem novilheiro Tomás Bastos despedia-se em Lisboa da sua
etapa de novilheiro e com os olhos postos na alternativa, Não defraudou e mostrou-se
“em novilheiro”, em busca do triunfo, arriscando frente ao primeiro novilho de
La Cercada que substituíram os anunciados de El Freixo. Na minha modesta
opinião este exemplar era reparado de vista, parando-se a curtas distâncias. Recebeu-o
com verónicas e um quite por gaoneras em que novilho lhe propinou uma
voltarela, sem consequências. Teve de tragar na faena de muleta ante a
incerteza de investidas do novilho e com mérito e pundonor sacou-lhe séries
pelos dois lados, sendo premiado com volta à arena. O que encerrou praça foi um
pouco melhor mas, por vezes, desentendia-se da muleta apesar de humilhar muito
nas investidas. Tomàs bandarilhou com muito acerto e foi fortemente ovacionado.
A faena de muleta foi de boa nota, entregado em tudo quanto fez, ligando bem os
muletazos e nunca virando cara à luta. Foi um novilheiro que quis deixar a sua
marca em Lisboa e o público voltou a premiá-lo com volta à arena.
Pegaram esta corrida os Forcados Amadores de Santarém com o
seu cabo Francisco Graciosa a abrir praça com uma boa pega à primeira e
Salvador Ribeiro de Almeida numa dura pega à segunda tentativa suportando
violentos derrotes.
O ganadeiro Joaquim Grave deu volta à arena após a lide do
segundo toiro da noite.
Nas cortesias guardou-se um minuto de silêncio em memória do
Dr. José Cabral, reputado médico e antigo elemento do GFA Montemor, do Dr.
Soares Fernandes que foi chefe da equipa médica do Campo Pequeno e de todos os
portugueses falecidos nos sismos da Venezuela.
Dirigiu o espectáculo Lara Gregório de Oliveira assessorada
pelo veterinário José Luís Cruz, com os toques de cornetim a cargo de José Henriques
e abrilhantou o expectáculo a Banda do Samouco.
Texto e foto: António Lúcio
Sem comentários:
Enviar um comentário