sexta-feira, 17 de julho de 2026

UMA NOITE PARA RECORDAR COM MORANTE A OMBROS NO CAMPO PEQUENO

Praça de Toiros do Campo Pequeno – Lisboa – 16/07/26 – Corrida Mista

Director: Lara Gregório de Oliveira – Veterinário: José Luís Cruz – Lotação: ESGOTADA

Cavaleiros: António Ribeiro Telles, Fermin Bohórquez

Forcados Amadores de Santarém

Matador: Morante de la Puebla

Novilheiro: Tomás Bastos

Ganadarias: Murteira Grave (1º e 2º), Álvaro Nuñez (3º e 5º) e La Cercada (4º e 6º)

O nosso genial poeta que foi Luís Vaz de Camões escreveu em “Os Lusíadas”, a seguinte estrofe: “Cantando espalharei por toda a parte se a tanto me ajudar o engenho e a arte”.

Pois bem estavam reunidos todos os ingredientes para que a corrida de inauguração da temporada de 2026 no Campo Pequeno fosse de êxito: um grande cartel e uma lotação esgotada com 4 dias de antecedência aumentavam as expectativas dos aficionados e que não saíram defraudados, bem pelo contrário. Um resultado que teve momentos de grande empolgamento, de verdadeira arte e magia. Uma corrida inolvidável e de grandes emoções.

Não sei se Morante se inspirou nas Tágides de Camões, se no fado, essa melodia melancólica que soa nos corações. A verdade é que o maestro de Puebla del Rio se mostrou, uma vez mais, a um nível insuperável, com um duende, uma “despaciosidad”, um temple incrível e desafiando as leis da Física. Parece que Camões o inspirou a espalhar a sua arte no dourado albero da praça lisboeta. E com um público completamente rendido aos encantos e magia do seu toureio.

Verónicas de bom traço e chicuelinas marcaram o início da sua actuação frente ao mansote terceiro de noite, de Álvaro Nuñez. A faena de muleta foi a demonstração clara e inequívoca do poderia toureiro de Morante. Deixou a muleta sempre na cara do toiro para que este não tivesse outra opção que não fosse segui-la. Girou sobre os calcanhares e com os seus prodigiosos golpes de “muñeca” ligou os muletazos ao som de “Morante de la Puebla” o passodoble escrito pelo maestro António Labreca e cuja partitura lhe havia entregue no final das cortesias. Houve momentos para desfrutar do bom toureio, por derechazos e naturais e alguns bonitos remates, Faena de muito boa nota. Mas seria no quinto da noite de tudo passaria para um nível muito acima. Depois de umas verónicas e meia de remate eis que decide colocar bandarilhas. Explosão de aplausos. O segundo par foi bom, de muito comprometimento com o toiro fechado em tábuas e o quarto par a quiebro foi muito bem executado. Rugia a praça, e com razão. O início de faena de muleta com 4 passes de joelhos e muito ajustados fez saltar a multidão nas bancadas. Depois vieram os derechazos ao ralenti, o tal temple e “despaciosidad” do maestro, rematando com um bonito e ajustado molinete. Depois uma excelente série com a mão direita, naturais, tudo com a magia e arte do diestro de La Puebla del Rio. O Campo Pequeno aplaudia de pé rendido ao seu encanto e magia. Uma lição. Para recordar para sempre. A saída, pela Porta Grande, a ombros dos alunos das Escolas de Toureio de Vila Franca, Moita e Montijo foi o corolário desta sua presença inesquecível em Lisboa.

Abriu praça outro Maestro, este da arte de Marialva, António Ribeiro Telles de seu nome. E que bem que esteve a lidar o bravo toiro de Murteira Grave. Uma lição do que é o bom toureio à portuguesa, clássico e com classe, a deixar-se ver nos cites desde logo comum segundo comprido de muito boa execução dando primazia de investida ao toiro. A série de curtos foi em crescendo vendo-se a alegria estampada no rosto de António por conseguir materializar esse conceito de toureio que o público tão bem soube premiar. Olá António Telles.

Fermin Bohórquez regressou ao Campo Pequeno e foi fiel aos seus princípios, um toureio mais campero mas com verdade. Gostei de o ver nos 3º curtos, de boa nota e no par de bandarilhas que deixou a seguir e que teve qualidade. Foi um bom regresso.

O jovem novilheiro Tomás Bastos despedia-se em Lisboa da sua etapa de novilheiro e com os olhos postos na alternativa, Não defraudou e mostrou-se “em novilheiro”, em busca do triunfo, arriscando frente ao primeiro novilho de La Cercada que substituíram os anunciados de El Freixo. Na minha modesta opinião este exemplar era reparado de vista, parando-se a curtas distâncias. Recebeu-o com verónicas e um quite por gaoneras em que novilho lhe propinou uma voltarela, sem consequências. Teve de tragar na faena de muleta ante a incerteza de investidas do novilho e com mérito e pundonor sacou-lhe séries pelos dois lados, sendo premiado com volta à arena. O que encerrou praça foi um pouco melhor mas, por vezes, desentendia-se da muleta apesar de humilhar muito nas investidas. Tomàs bandarilhou com muito acerto e foi fortemente ovacionado. A faena de muleta foi de boa nota, entregado em tudo quanto fez, ligando bem os muletazos e nunca virando cara à luta. Foi um novilheiro que quis deixar a sua marca em Lisboa e o público voltou a premiá-lo com volta à arena.

Pegaram esta corrida os Forcados Amadores de Santarém com o seu cabo Francisco Graciosa a abrir praça com uma boa pega à primeira e Salvador Ribeiro de Almeida numa dura pega à segunda tentativa suportando violentos derrotes.

O ganadeiro Joaquim Grave deu volta à arena após a lide do segundo toiro da noite.

Nas cortesias guardou-se um minuto de silêncio em memória do Dr. José Cabral, reputado médico e antigo elemento do GFA Montemor, do Dr. Soares Fernandes que foi chefe da equipa médica do Campo Pequeno e de todos os portugueses falecidos nos sismos da Venezuela.

Dirigiu o espectáculo Lara Gregório de Oliveira assessorada pelo veterinário José Luís Cruz, com os toques de cornetim a cargo de José Henriques e abrilhantou o expectáculo a Banda do Samouco.

Texto e foto: António Lúcio


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