quarta-feira, 27 de maio de 2026

UMA PÁGINA, UMA TELA, UMA PARTITURA, TUDO EM BRANCO…


Converter o caos das ideias numa peça literária, numa pintura ou numa música é obra. Nem sempre é fácil ordenar as nossas ideias, os nossos pensamentos, perante uma página em branco e transformá-los em algo que as outras pessoas possam compreender. É uma tarefa difícil porque obriga a conhecer a língua portuguesa, a estrutura das frases e o tipo literário que se pretende, e mais ainda quando temos necessidade de analisar algo que acontece num determinado evento. O mesmo sucederá com um músico, com a necessidade preencher escalas e determinar sons consoante os instrumentos que pretende utilizar, e, da mesma forma, um pintor consoante as técnicas que utiliza e a obra que pretende consumar.

Mas tudo isto não tem nenhum contexto de risco iminente a não ser o de um texto mal escrito ou mal interpretado, de uma nota fora de contexto ou de uma pintura aparentemente sem nexo.

Agora quando por diante do ser humano se encontra um animal, de raça brava, o toiro de lide, tudo se complica. Porque, para além do conhecimento técnico do toureio, o toureiro necessita da colaboração do outro elemento da equação para poder desenhar a sua arte. E o toiro tem de “ser lido” muito rapidamente para encontrar as melhores soluções técnicas e artísticas para ordenar o caos das suas iniciais investidas e converter esse caos em obra de arte. Por isso nos lembramos da faena x ao toiro y na praça z, exactamente porque se reuniram todas as condicionantes numa única expressão de arte. E, ainda mais, na mais democrática das artes pois se permitem várias interpretações e juízos sobre a mesma.

É assim que entendo também a minha função como aficionado que escreve sobre toiros, sobre a arte que mais admira, sobre o que vi, vivi e senti em cada tarde/noite de toiros e já lá vão mais de 45 anos, dos quais quase 39 (13 de junho) como crítico tauromáquico.

Os tempos de hoje nada têm a ver, ou muito pouco têm a ver, com aqueles em que me iniciei nestas matérias. Não eram melhores nem foram piores que os de hoje. Simplesmente diferentes. Em quase tudo. Nunca pensei chegar tão longe no tempo e no espaço até por via de vicissitudes que sofri e são do conhecimento geral. O Barreira de Sombra sucedeu ao Da Barreira ao Redondel quando me mudei da Europa FM para a Rádio Oásis, mas manteve sempre o rumo. Escrever e falar sempre com o máximo respeito para com todos os intervenientes no espectáculo e todos aqueles que cumprem a sua missão de informar.

Uma página em branco será sempre uma página em branco se não acontecer nada que nos obrigue a preenchê-la, seja de que forma seja.

Um grande agradecimento a todos quantos têm acompanhado esta aventura.

Sobral de Monte Agraço, 27 de Maio de 2026

António Lúcio

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